História da futura supremacia feminina

Talvez todos os teóricos do desenvolvimento da humanidade tenham errado até hoje. Talvez o fato de serem “os” teóricos, no masculino, não seja uma eventualidade, mas uma das causas de seu erro fundamental: normalizando a supremacia masculinas e a própria masculinidade, esses homens perceberam tendências, propuseram teorias e anteviram fatos, mas fizeram tudo isso levando em conta apenas o fator racional do ser humano. A biologia ficou de lado.

Tudo isso fazia sentido. Mas hoje novas explicações são necessárias.

Vou me somar aos teóricos e a partir da percepção de tendências, propor uma teoria que explique e indique o futuro da humanidade: a supremacia feminina total.

Inicio por onde creio que meus colegas deixaram lacunas: a biologia. É indiscutível que não foi toda a biologia que foi deixada de lado, afinal de contas a necessidade de alimentar-se e procriar, manter-se a si e a prole vivos foi sempre levada em consideração por quaisquer que sejam as teorias sociais sobre a humanidade.

Meu argumento concorda com esse uso da biologia, mas vai além. A espécie humana, por ser a única provida de racionalidade, é a única que realiza processos de racionalização de impulsos biológicos. O amor, em suas diversas formas, não é mais do que a racionalização de um impulso biológico comum a todos os animais: a reprodução da espécie. Os jovens humanos buscam companhia sexual para a cópula. Os casais se formam e têm filhos. Esses filhos são protegidos das ameaças externas. Ao atingirem certa idade esses mesmos filhos buscam também reproduzirem-se. O amor de pais e filhos, de esposas e maridos é apenas uma racionalização de um impulso comum a todas as espécies.

Mas e o amor a parentes, amigos, companheiros, etc? Também é um traço biológico racionalizado. A humanidade é composta por animais que em milênios de existência evoluiu, no que diz respeito à sua organização social, à percepção de que a única forma de preservação da espécie seria a agregação em grupos visando a proteção mútua, daí a comunidade, o estado, a religião e o companheirismo e daí também o espanto e o medo frente ao nômade e ao solitário.

Os antepassados da espécie humana já se organizavam em bandos para proteção mútua e os membros dessas espécies que fugiram a essa organização foram extintos. Os que perseveraram foram os gregários. O homem trouxe uma carga genética comportamental dos antepassados e o homem inovou com algo que não existia até então: a racionalidade.

A racionalidade permitiu que a humanidade buscasse explicações para fenômenos naturais. Os seres não dotados de racionalidade vivem em busca de alimento, sem dar-se conta do que causa tal busca. O homem foi capaz de localizar no gasto energético de cada ser a causa da fome e no alimento, o combustível da continuidade da vida e da saciedade. Os seres não dotados de racionalidade comem frutos quando eles estão disponíveis. O homem foi capaz de perceber que frutos vinham de árvores e que árvores vinham de sementes plantadas na terra e expostas a certas situações (calor, umidade, nutrientes, etc) que permitiam sua continuidade. Daí, a agricultura.

A humanidade estabeleceu a agricultura, que é o controle da natureza, e isso permitiu que seu gasto energético fosse mais facilmente reposto, sem a necessidade de exposição a conflitos com outros animais para a conquista do alimento. Isso ampliou o tempo da vida de cada ser da espécie e, em consequência, o aumento do número de seres. A partir de certo momento na história, os grupos de seres humanos ficaram grandes demais para os espaços que habitavam e o alimento passou a ser insuficiente a todos. A ingestão de menor quantidade de calorias teve como resposta racional a separação: grupos passaram a buscar outras regiões para estabelecerem-se.

Nesse momento da história da humanidade, pela questão biológica de o macho da espécie humana possuir maior força mecânica e não gestar a prole, deu-se o início da supremacia masculina. O macho expunha-se mais frente ao perigo do conflito com outros animais. Em alguns embates ele saiu vitorioso, pela força, frente a outras espécies. Em outros, foi seu engenho que garantiu a sobrevivência. O agrupamento de vários machos, somando forças, para derrotar um inimigo criou um senso de comunidade, uma identificação de grupo necessária a sobrevivência entre esses machos. Assim, por garantir a sobrevida da espécie, pela vitória frente a outros animais, pela relação de grupo com outros machos, o ser humano do sexo masculino condicionou-se a pensar em si mesmo como dominador: frente à natureza, à outros animais e às fêmeas de sua espécie.

A sociedade patriarcal foi estruturada através dos milênios. Características como o entusiasmo pela aventura, a bravura, a coragem, etc foram atribuídas ao macho e as recompensas que cada ato de um macho merecia seriam também merecidas pelos outros machos.

Como essa estruturação social garantiu por muito tempo uma melhora das condições biológicas do ser humano (maior tempo de vida dos seres, maior disponibilidade de calorias para ingestão, prole mais numerosa e com menos mortes, etc), os questionamentos à ela foram poucos e as “aberrações” (seres que não participavam da reprodução regular da espécie e da estruturação) foram também raras e silenciadas.

Mesmo que se tome a linha do tempo clássica de análise das sociedades humanas (pré-história, sociedades antigas, medievais, modernas), seu distintos modos de organização da alocação de recursos (primitivismo, escravismo, feudalismo, capitalismo, etc) essa evolução em direção ao ótimo biológico é verificada. Até um certo momento.

O século XX representou o início de uma virada biológica com respostas racionalizadas da espécie humana. A aceleração capitalista promoveu uma busca incessante dos seres a recursos além de seu uso, portanto inúteis à reprodução da espécie e de seu modo de vida. De um lado, estão seres que foram vitoriosos nessa busca e, portanto, estão mais próximo do ótimo biológico, mas com recursos não utilizados desperdiçados. De outro, a grande maioria dos seres da espécie distancia-se dos primeiros e há a percepção de escassez entre os membros desse segundo grupo.

Devido a sua característica adquirida, o macho da espécie é o tomador de iniciativa nos momentos em que há busca por mais recurso, seja área, seja alimento, seja o que a sociedade humana convencionou a ver como desejável, ouro por exemplo. Dessa forma, a guerra vinha sendo já há séculos uma forma encontrada pelos machos de resolução de conflitos intra-espécie. Com o avanço da tecnologia, as guerras passaram de um confronto direto entre membros de grupos, com baixas que não impactavam significativamente na reprodução da espécie, à situações de batalha com uso extensivo de ferramentas que causavam cada vez um dano maior ao adversário, portanto à toda a espécie.

O século XX é um ponto de inflexão pois durante esse pequeno período foi registrado um número três vezes maior de mortos em conflitos intra-espécie (guerras) do que todos os séculos anteriores somados. Um impacto muito grande na percepção de “evolução” das condições da espécie humana se desenvolver.

Não acredito que seja coincidência, portanto, que nesse século surgiram e/ou ganharam força movimentos dentro da espécie humana que questionavam: a forma de organização social da espécie (o patriarcado), a forma de organização da alocação de recursos disponíveis à espécie (o capitalismo), a divisão de recursos intra-espécie baseado em características diferentes de grupos da mesma espécie (racismo), a conformação sexual na espécie (homossexualidade, transsexualidade, assexualidade), a preocupação com a possibilidade de reprodução da prole afetar os pais, reduzindo os seus recursos, ou do futuro da própria prole (controle parental, camisinha, pílula do dia seguinte), a preocupação com a reprodução também do meio em que a espécie adaptou-se (ambientalismo) etc.

No início do século XXI há um acirramento de outras respostas biológicas racionalizadas, como o individualismo, o descolamento comunitário e a desagregação das comunidades, o desinteresse pela procriação, pelo pareamento sexual ou mesmo pelo sexo, a ampliação do interesse por seres do mesmo sexo, a condenação do sexo, a urgência do direito a interrupção da gravidez, tratamentos para a impossibilidade de engravidar.

Essa mudança de rumos da humanidade aponta não para sua extinção, em nosso ponto de vista, mas para uma conjugação de fatores que levará as fêmeas da espécie a identificar biologicamente (e sua consequente resposta racional) no macho da espécie o inimigo natural da mesma, avançando então para ações diversas no sentido de quebrar a reprodução do macho: seja por  desinteresse por machos, seja por desinteresse em gravidez, seja por aborto quando da gravidez de machos ser mais provável de acontecer, seja por mulheres com histórico familiar de dar a luz a prole feminina, por razões ainda não descobertas, procurarem engravidar e darem a luz a mais fêmeas, seja pelo próprio acirramento da aniquilação do macho pelo macho em guerras e disputas enquanto há fortalecimento da relação das fêmeas com outras fêmeas no mesmo sentido que ocorreu com os machos no início da expansão territorial da espécie, seja por formas que ainda não conseguimos vislumbrar no turbilhão do processo que já se iniciou.

Na minha visão, portanto, os caracteres masculinos deixarão de ser aqueles que são vistos como melhores ou dignos de recompensa, seja no ambiente de trabalho onde o compartilhamento soterre a hierarquia, e uma maior integração seja premiada e não um maior destaque individual no esquema de competição.

Aqui é importante uma ressalva: certamente esse processo não será rápido e com certeza haverá ainda tentativas de restabelecimento da estruturação que premia o macho, como por exemplo a economia on-demand, simbolizada pelo Uber. Não à toa, da mesma forma, que o número de motoristas machos de Uber é tão superior a de mulheres. O processo que levará séculos não será linear, mas será integralizador.

Veremos dessa forma mais e mais campanhas levadas a cabo por organizações tipicamente masculinas (igreja, estado, empresas) para o fortalecimento da família tradicional, pelo aumento do número de filhos, por uma vida sexual (no sentido de heterossexual) ativa. Todas fadadas ao fracasso.

A tecnologia já permite hoje que uma fêmea tenha filhos independente de haver um macho diretamente envolvido. A produção de gametas de um único macho da espécie em poucas coletas já garantiria a preservação da espécie por décadas, dado o tratamento, seleção e armazenamento dos espermatozoides. A ciência pelo lado da fêmea, como é de se esperar, ainda não evoluiu de forma a permitir que um único espermatozoide isolado seja o bastante para fertilizar um óvulo, mas é questão de tempo. As cientistas logo serão maior número que os cientistas e isso alterará toda a cadeia de produção e aplicação de novos conhecimentos científicos. Talvez nem espermatozoides sejam necessários no futuro.

O que permanecerá necessário, contudo, é o óvulo, o útero e a fêmea. Ou talvez nem o óvulo, nem o útero e seja possível uma reprodução externa, a decisão caberá a cada fêmea, claro. O amor de mães a filhos, como já dito, é só uma resposta racional a um impulso biológico. Permanecerá a mulher.

Toda a organização social da/na história ocidental e ocidentalizada foi dominada pelo macho, e mesmo os teóricos de sua superação pensaram de um ponto de vista do macho. Os machos eram os bons e os maus, os pecadores e os santos, os opressores e os oprimidos, os capitalistas e os trabalhadores, os vencedores e os vencidos. Caberá à negação do macho superá-lo.

Fica em aberto o que virá para superar a futura supremacia feminina.